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pólo sul

pólo sul

02.02.07

[47] Parado

polosul
Foi por acaso que tudo se suspendeu. Reparei que estavam todos ensimesmados, porventura alienados, mas cientes do meio e conscientes de que havia outras pessoas à volta. E foi por acaso que senti estar à beira da eternidade. Suspenso, com um leve rumorejar, e extraordinariamente feliz. Tão feliz e emocionado como quando passei a ir de autocarro para a escola; quando dei o primeiro beijo ou quando (...)
28.01.07

[44] Ir ali e voltar

polosul
Passei o final do ano a resistir à tentação de criar novos blogues, porque este tem uma matriz, porque o seu intuito inicial foi-se alterando, porque é preciso mudar (mesmo que tudo fique na mesma), porque existem outras formas de expressão, porque etc. e tal... Mas a criação de outros blogues seria um prejuízo: dispersão, artigos cada vez mais escassos, os amigos, conhecidos e curiosos a (...)
21.11.06

[42] Virar

polosul
  Em finais de 1980, num bairro de esquinas pintadas a sépia, de ruas esburacadas e tempos lentos, pólo sul escreveu:   Tu vias. Com um olhar reparavas que falava em esperança com um sorriso que não enganava.   Tu compreendias. Sou um passeio matinal numa rua direita, em visita a um hospital.   Tu sabias. A vida sempre igual num bairro desigual a consumir-me de um mal.   Tu falaste comigo.
26.09.06

[38] Tarde de mais

polosul
Acordou e começou a pensar febrilmente, como só acontecia quando as preocupações o atormentavam, tal como agora, depois dela lhe ter confessado, entre lençóis, de que ele é um menino embirrento.Acordou a pensar na acusação de que era ele quem lançava a semente do desencanto sobre um amor que deveria prevalecer sobre todas estas coisas.Culpa-a por lhe apontar os defeitos; acusa-a de lhe (...)
22.09.06

[37] A promessa

polosul
Nós prometemos. Enlaçámo-nos um no outro e prometemos que nada nem ninguém se atravessaria no nosso caminho. Naquele tempo sentimos que era tudo tão verdade, tão definitivamente verdadeiro. Como quando olhamos esta montanha e ela, perene e eterna, garante que sempre estará por ali. A nossa promessa era uma colina. Não haveria luxúria nem baixeza que nos tentasse e a derrubasse. Quem diz colina, diz cordilheira, Sol, mar e sei lá que mais. Tudo, mas mesmo tudo, era eterno. (...)
06.09.06

[33] A ler nos apaixonamos (III)

polosul
E ela respondeu com o seguinte: «Caro Senhor, lamento só agora responder à sua missiva. E peço-lhe que releve. Pois foi por uma causa honesta. Fico envergonhada só de o imaginar a escrever todas aquelas coisas! Olho para os meus familiares, amigos, inimigos, fãs e críticos e confesso que jamais me ocorreu ser olhada com essa profundidade. Você escreveu aquilo que eu sou! Apaixonei-me pela sua carta. Li, reli, porventura tresli, rendida à evidência.  Você escreveu o que sempre (...)
24.07.06

[32] A ler nos apaixonamos (II)

polosul
Avistei-a ao longe numa alameda outonal a passear um labrador de expressão ansiosa e terna. Eu regressava do supermercado. Quando me cruzei com ela, já tinha uma bolacha na mão para oferecer ao cão. Era a minha oportunidade! O cão aproximou-se e não se armou em esquisito como aqueles que cheiram, dão uma volta, cheiram outra vez e só então se decidem. Foi lesto e eficaz. Dei-lhe a segunda bolacha e fitei-a, firme e seguro. Ela devolveu-me uma expressão entre a timidez e a (...)
24.07.06

[31] A ler nos apaixonamos (I)

polosul
Apaixonei-me. Primeiro, pelo livros que escreveu. Depois pela profundidade do olhar dela quando assisti à sessão de autógrafos na Feira do Livro. Um dia, enquanto esperava pela minha vez no dentista, calhou ler uma entrevista dela a um dos suplementos de um jornal diário e soube de pormenores de incalculável valor para qualquer pretendente. Eram coisas íntimas, sentidas, sinceras. Fiquei mais apaixonado, quer dizer, alargou-se o âmbito da minha paixão: já não era puramente (...)
24.07.06

[30] Para sempre

polosul
  “Amo-te. És a mulher da minha vida”, dizia e repetia ele. “Amo-te. És a mulher da minha vida”. Um dia ela cansou-se e ripostou: “Isso não chega.” E ele repetiu, insistiu, teimou, chorou, lamentou e pediu mais uma oportunidade. Só mais uma. E ela concedeu, esperou e desesperou. Ela: “Vamos acabar com isto.” E ele: “Amo-te. És a mulher da (...)
05.07.06

[29] Caminhar

polosul
  Quando nasci, pensei eu ligeiramente mais tarde, foi o princípio do fim da História. O Mundo nunca mais seria igual. Quer dizer, a infância pregou-me partidas que me levaram a concluir que o caminho era árduo, mas acabaria por lá chegar. Porém, a adolescência deu-me certezas inabaláveis sobre a minha infinita importância e quão seria decisivo para o curso da Humanidade. Já adulto, (...)