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pólo sul

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14.06.06

[26] Um dia desses...

polosul
Gostar dela foi vertiginoso: como não ser atraído por aqueles e-mails arejados, a transbordarem de alegria e poesia, sempre adequados ao tempo e à circunstância!? Como impedir-me de sonhar com aquela escrita inebriante, de pele e perfume de pêssego? Quem escreve assim só pode ser linda de morrer! Mais, é sensual! Além disso é inteligente e meiga, muito meiguinha.   Já não consigo fazer as (...)
21.05.06

[23] Perspectiva

polosul
Quando telefonei já tinha decidido suicidar-me.   Premi as teclas do telefone, ouvi o sinal de chamada por 3 vezes e alguém saudou: “Boa noite”, com uma entoação a dois tempos, como se dissesse “aqui estou eu, o que deseja?” Hesitei, perguntei quem falava, queria ganhar tempo. E ele respondeu, firme e incisivo, sem se identificar: “Diga.” Avancei, aquela era a minha deixa, declarei que iria suicidar-me e já sabia quando e onde. Fez-se silêncio. (...)
24.04.06

[22] Aonde?

polosul
   Enquanto a Joana brincava silenciosamente com as bonecas, refugiada atrás daquele maciço sofá, ouviu-os: Pai: “Ela é de outra fibra, de outro sangue!” Mãe: “São iguais!” Pai: “A Carla é melhor!” Mãe: “Chiu! A Joana pode ouvir!” E desde então a Joana nunca conseguiu ser melhor que a irmã, e quando o era, o pai esforçava-se por lhe (...)
10.04.06

[20] Uma família

polosul
   Enquanto dormitava no átrio de um aeroporto de Londres, sentou-se à minha frente uma família inglesa esguia. A mãe tinha um ar banal, de vestido castanho; o pai envergava uma fatiota cinzenta ligeiramente coçada; a adolescente era hippie e o miúdo chupava o polegar. Eram cerca de 5h30 da manhã. Acordaram-me com uma discussão em voz baixa, tensos, a carregaram nos prefixos cheios de raiva. (...)
06.04.06

[18] A mudança

polosul
  Ela faleceu enquanto eu dormia. E não posso sequer dizer que acordei a meio da noite ou que despertei com um pressentimento esquisito. Acordei e pronto.       Alguém batia na porta. Fui abrir, um tipo passou-me um envelope e estendi uma mão ensonada. Era a notícia: “Lamentamos o falecimento de…”       Depois foi tudo muito rápido. Como de costume, a vida correu: não se guardaram minutos de silêncio, as crianças continuaram a brincar, as pessoas (...)
13.03.06

[16] O almoço

polosul
Hoje fui almoçar com o meu pai. Ele está velho e esquecido. Mais uma vez, ao olhar para ele, não consegui deixar de lembrar-me dos actos mesquinhos, da indiferença e da olímpica arrogância. Detestava-o, particularmente depois dele passar a culpar-me pela morte da minha mãe, como se fosse possível a uma criança, por artes desconhecidas da humana condição, fazer com que uma pessoa morra com um cancro... Hoje olho para ele e sinto alguma piedade. É isso: piedade, como se a (...)
11.02.06

[14] Uma história japonesa de amor

polosul
Era Janeiro, chovia e fazia frio no aeroporto. Koyuki partia. O marido, Tanaka, ficava. Estavam casados há 5 anos. Ela ia para Barcelona, tentar uma nova técnica para conseguir ter filhos. Tanaka ficava em Lisboa porque o dever assim o impunha. Koyuki estava inconsolável, mas silenciosa. O marido tratou de tudo. Na véspera seleccionou a roupa e fez a mala. Na manhã da partida acordou-a, preparou-lhe o banho e o pequeno-almoço. Deu-lhe a mão quando saíram de casa, carregou a mala, (...)
24.01.06

[13] Efeito colateral de uma queda

polosul
Enquanto caía na neve, voluntária ou acidentalmente, interrogava-me sempre por que diacho tinha um blog... Ele há cada coisa! Cheguei e pus-me a reler o meu blog: alterava tudo ou quase tudo; reescrevia bastante; refazia algumas coisas... enfim, mudava bastante. Mas senti-me reconfortado depois de o ler. Até já falo dele - do blog - como se se tratasse de uma terceira pessoa. Pelos vistos isto vai ser sempre assim. Por isso não vou parar de escrever até ficar plenamente demonstrado (...)
05.01.06

[11] E agora?

polosul
Sonhava escrever cartas afectuosas que não fossem rídiculas, evitando as mesmas águas do poeta. Por isso, tomei atalhos e escrevi as palavras que fossem para todos, desde sempre e em todos os lugares, claras e evidentes. As coisas eram o que eram. Ponto final. Depois Borges estragou-me tudo ("a palavra é o arquétipo das coisas") e descobri que um homem que anda a reboque das coisas a que chamamos realidade jamais poderá ser escritor, menos ainda poeta. Mergulhei na (...)
30.12.05

[10] A caminho d`As Janeiras, com Rembrandt

polosul
“An old man in an armchair” de Rembrandt Há dias assim. A gente senta-se, não apetece ler, comer ou conversar. Ficamos ali. A pensar, porventura a matutar. E o dia, que se anunciava mexido, fica por ali, a desembrulhar-se e a abandonar-se como um presente de Natal. Há dias assim.