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pólo sul

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17.08.21

[132] Cair para dentro

polosul
A sinopse da WOOK ao último romance de Valério Romão não lhe faz justiça, por ser simplista e quase  desincentivar à leitura, quando até o título - Cair para dentro - motivaria qualquer leitor apático a ler as primeiras páginas.  Como já li dois livros anteriores do mesmo autor - Autismo e O da Joana - sabia ao que ia e li este terceiro com mais expetativa do que curiosidade. Diria que não há uma página em que V. Romão não exija do leitor que olhe para si e medite sobre a (...)
10.08.21

[131] Relato de um náufrago

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Este livro, ou melhor, esta coletânea de artigos publicados no diário El Espectador de Bogotá, em 1955, da autoria do então jornalista Gabriel García Márquez, lê-se sofregamente. Foi difícil parar de ler a narrativa na primeira pessoa e simultaneamente perguntar-me o que faria se estivesse no lugar de Luis Alejandro Velasco, o náufrago, que chegou a dar-se por derrotado: "Em todos os momentos tentei defender-me. Sempre encontrei um recurso para sobreviver, um ponto de apoio, por (...)
10.08.21

[130] Porto-Sudão, de Olivier Rolin

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A morte de um amigo, de nome A., leva o protagonista a regressar a Paris. E a partir daqui, desenrola-se uma peregrinação pela memória, onde se sabe que "o sofrimento não era um jantar de gala, nem poesia elegíaca, que era sangue, suor e merda" (p. 47). Não obstante, diz o sobrevivo, "Tentei cumprir o que senti como um dever para com A.: dar ao seu amor morto, mas não enterrado, uma sepultura de palavras." (p. 85) O amigo suicidou-se, após evidenciar vários sinais de degração, (...)
10.08.21

[129] A invenção de Adolfo Bioy Casares

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A invenção de Morel, de Bioy Casares, conta com um prefácio de valor incalculável, quer pelo autor - Jorge Luís Borges - quer pelo seu teor, especialmente do último parágrafo:  "Discuti com o autor os pormenores do enredo, reli-o; não me parece uma imprecisão ou hipérbole classificá-lo de perfeito." Teria aquela frase de Borges algo que ver com o entusiamo de Morel,  quando admite o impensável, como seja a "influência do futuro sobre o passado" (p. 56)? O que dizer de um (...)
09.08.21

[128] A estrela de Clarice Lispector

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Macabéa, a protagonista do livro, merecia mais de Olímpico, o homem por quem se apaixonou. Aqui não há uma história de amor, há, sobretudo, uma história de desencontro. Parece gasto e repisado, eu sei. Mas é o que é. Se já tentou ler outros livros de Clarice Lispector e não conseguiu, esta última obra, publicada pouco antes de morrer, é um bom ponto de partida. Há quem desista de ler este livro porque fica confuso com a perspetiva do narrador e as suas intromissões, (...)
28.07.21

[127] Pedro Páramo, de Juan Rulfo

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À terceira foi de vez. Era, sempre me pareceu, uma obra de difícil leitura. Agora nem tanto, nem tão pouco. Ia quase a dizer que cresci a ouvir dizer que este é que era o livro que deveria ler antes de avançar para os romances e novelas do realismo mágico sul-americano, mas não me parece. Se tivesse sido o primeiro, certamente ficaria desmotivado para ler o que veio a seguir. Juan Preciado, após a morte da mãe, vai a Comala procurar o pai, Pedro Páramo. Da mãe diz que, no dia (...)
24.07.21

[126] Eça, sempre Eça

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Na nota prévia à obra póstuma de Eça de Queiroz, "Alves & C.ª e Outras Ficções" (Livros do Brasil, s/ data), João Palma-Ferreira resume, singela e rigorosamente, do que trata a novela: "história «sem caprichos» de um negociante de comissões com o Ultramar" (p. 13) ou uma "caricatura (talvez superficial) de uma sólida família de uma burguesia lisboeta" (p. 15), que melhor seria se fosse intitulada Godofredo, Machado & Ludovina. Godofredo é casado com Ludovina (Lulu) e (...)
24.07.21

[125] Pensamentos secretos

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Sobre o secretismo dos pensamentos, ou melhor, sobre a verdade do que pensamos, David Lodge adianta o seguinte: "Nunca sabemos ao certo o que outra pessoa está realmente a pensar. Mesmo que decida contar-nos, nunca podemos saber se está a dizer-nos a verdade, ou a verdade toda." (p. 52) Portanto, já avisados, ficamos a saber que se pode desvendar o que um cônjuge pensa, real e inteiramente, do outro, analisando a linguagem que adotam. Por exemplo: "Ela trata-o por «Messenger» (...), (...)
18.07.21

[124] O enterro do diabo

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Um coronel idoso, a filha que casou com um homem que não conhecia, e o filha dela, vão velar um morto, o "doutor", um homem que a povoação odiava, mas por quem o coronel se sentia devedor. O livro - dizem que é uma novela, pois seja - desenrola-se em monólogos do pai, da filha e do neto durante o velório. O "doutor" não tem a palavra, jaz morto, repescado à vida nos monólogos, sem direito a contraditório, afinal ele personifica o diabo. Os habitantes da povoação não gostavam (...)
10.07.21

[123] Eliete, para onde nos levas?

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Dulce Maria Cardodo irrompeu na minha vida com O Retorno, livro que evocou e dessacralizou um período infantil e precoce da minha vida. Eles vinham de longe, os retornados, essas pessoas que desencadeavam um inexplicável desdém e censura por parte dos indígenas lusitanos. Apesar de  ser um miúdo, já entendia os desabafos exasperados sobre os retornados, mas não compreendia de todo a origem de tanta raiva. Porquê desvalorizar, injuriar e até difamar pessoas que fugiram das suas (...)