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pólo sul

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Dom | 21.05.06

[23] Perspectiva

polosul

Quando telefonei já tinha decidido suicidar-me.

 

Premi as teclas do telefone, ouvi o sinal de chamada por 3 vezes e alguém saudou: “Boa noite”, com uma entoação a dois tempos, como se dissesse “aqui estou eu, o que deseja?” Hesitei, perguntei quem falava, queria ganhar tempo. E ele respondeu, firme e incisivo, sem se identificar: “Diga.”

Avancei, aquela era a minha deixa, declarei que iria suicidar-me e já sabia quando e onde. Fez-se silêncio. “E qual o seu objectivo ao telefonar para aqui?” Não fiquei surpreendido. Sabia que apanharia qualquer um desprevenido e aquela era uma forma das pessoas recuperarem. “Porque não aguento mais.” O silêncio reapareceu e o nervosismo deu lugar à inquietação.

O que é que posso fazer por si?”, perguntou.

Fiquei apreensivo, e repliquei: “Como!?

Se já decidiu e mesmo assim ligou é porque está à espera que lhe diga algo que o prenda à vida. Mas não sei o que lhe dizer.” Senti-me desamparado: “Vocês não têm uma preparação especial para estas coisas?

Comecei a ficar irritado: raios!, nem sequer me pediu para falar da minha vida, e dizer que os meus pais eram diferentes, mas iguais na frieza e na desumanidade. Não, não me maltratavam fisicamente. Tratavam-me como o ar quente que lhes estragava a comida ou uma janela aberta que lhes trazia os mosquitos. A minha casa era uma arca frigorífica onde sempre procurei surpreender um olhar afectuoso, um sorriso, e nada.

Percebi um suspiro ou bocejo do outro lado da linha. Aquilo era demais! Carreguei nas tintas escuras da minha história: “Não tenho trabalho.”

Está, portanto desempregado?” perguntou ele. Senti-me recompensado e continuei: que sofria de asma, prisão de ventre e vários problemas de pele; que estava a ser acompanhado por um psiquiatra há mais de 15 anos. Ansiolíticos, anti-depressivos, relaxantes e calmantes, de tudo havia tomado. Ele interpôs: “Que idade tem?” E aqui senti-me uma sequência binária, como se me tivessem tomado como um dado estatístico. Mais outro que se quer matar… Percebem o que quero dizer?

Esta banalização tirou-me do sério: “Para quê, de que lhe serve isso!?” Ele tossiu, pareceu-me que levemente embaraçado, e retorquiu: “É casado?” Aqui amaciei porque senti que voltava a interessar-se por mim e disse logo que não, que elas me achavam, sempre me acharam esquisito, nem sequer tive uma namorada.

Ele mudou o curso da conversa e perguntou se eu tinha dificuldades económicas. Disse-lhe que sim, além de estar desempregado e sem perspectivas de obter novo emprego, não tinha família, nem amigos, lamentei. Nada. Também era por isso que me ia matar. Voltou a cair um silêncio entre nós. Aguardei.

E ele: “Olhe, não sei o que lhe dizer. A sua vida é muito difícil, não sei o que faria no seu lugar! Desempregado, sem família, sem amigos, sem objectivos na vida, para que serve viver!? Eu também me inclinaria para uma solução rápida e definitiva!

Fiquei indignado, espumei de raiva, insultei-o. Por fim, sempre calmo, ele concluiu: “Eu acho que você ainda tem dúvidas sobre essa decisão, mas não encontro argumentos que o façam mudar de ideias....

 

Desliguei o telefone, furioso, e a jurar que haveria de queixar-me disto e mandar para os jornais. E assim fiz. Estranhamente, houve quem gostasse e me pedisse que continuasse a escrever. Depois começaram a pagar-me para escrever mais. E hoje em dia esse é o meu trabalho: escrever sobre mim e sobre estas coisas.

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