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pólo sul

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Seg | 10.04.06

[20] Uma família

polosul

 

 
Enquanto dormitava no átrio de um aeroporto de Londres, sentou-se à minha frente uma família inglesa esguia. A mãe tinha um ar banal, de vestido castanho; o pai envergava uma fatiota cinzenta ligeiramente coçada; a adolescente era hippie e o miúdo chupava o polegar. Eram cerca de 5h30 da manhã.
 
Acordaram-me com uma discussão em voz baixa, tensos, a carregaram nos prefixos cheios de raiva. O pai não queria que a filha andasse com a mala de tiracolo meia desfeita, com listras finas tricolores, porque mais parecia uma drogada; a mãe defendia-a; a rapariga franzia a testa e olhava para o ar; o miúdo mantinha o dedo na boca.
 
O pai levantou-se e puxou a mala, a rapariga agarrou-se à mala, o pai deu-lhe uma bofetada e a filha respondeu com uma mordidela; a mãe puxou os cabelos do marido; o marido desatou aos pontapés à mulher e à filha; o miúdo agarrou-se às pernas da mãe, a chorar desalmadamente e a olhar para mim.
E eu estava atónito.
Apareceu a polícia, separaram a família e perdi-os de vista.
Desde então deixei de acreditar em famílias perfeitas.

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