Segunda-feira, 13 de Março de 2006
[16] O almoço

Pai_filho_mar.jpg Hoje fui almoçar com o meu pai. Ele está velho e esquecido. Mais uma vez, ao olhar para ele, não consegui deixar de lembrar-me dos actos mesquinhos, da indiferença e da olímpica arrogância. Detestava-o, particularmente depois dele passar a culpar-me pela morte da minha mãe, como se fosse possível a uma criança, por artes desconhecidas da humana condição, fazer com que uma pessoa morra com um cancro... Hoje olho para ele e sinto alguma piedade. É isso: piedade, como se a velhice lhe conferisse a fragilidade das crianças desamparadas e desorientadas. E com a compaixão comecei a aprender a gostar dele. Não é amor filial, nem carinho, nem ternura. Algo que se encontra nas franjas dos afectos e das preocupações com outrem. Estimo-o. Afinal de contas ele pertence a um passado carregado de significações; sustentou-me, contrafeito é certo, sempre a atirar-me à cara o esforço que fazia, mas sustentou-me. E são estas e outras coisas intraduzíveis, carregadas de psicologismos e de sentimentos de gratidão, retribuição e condescendência que me levam a dizer que gosto dele. Apesar de tudo. Ele desiludiu-me muito no passado. Agora já não tem essa capacidade de me iludir. Mesmo assim gosto dele, sem mágoa, apenas dorido.



publicado por polosul às 22:15
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7 comentários:
De nninoca a 24 de Março de 2006 às 13:42
Conseguiste arrepiar-me. A forma como descreves.....
Parabéns!


De silencebox a 25 de Março de 2006 às 11:45
Adorei...!


De Fernanda Carvalho a 25 de Março de 2006 às 21:53
Fiquei sem palavras.
Aquilo que eu sinto,tu escreveste.

Fernanda


De solcar a 6 de Abril de 2006 às 11:03
Como prometi, e como comentário, peço que leias o nº19-A GARRAFA, do meu oldblog
Deixo mais um abraço


De Norberto a 7 de Abril de 2006 às 19:58
Gostei ,o que dizer talvez a uma segunda feira?


De Ana Sousa a 12 de Abril de 2006 às 15:57
Pode ser q um dia eu venha a sentir o mesmo pela minha mãe... por enquanto, não consigo.


De apouca a 26 de Junho de 2006 às 22:24
... também ainda não o consigo.


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