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pólo sul

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Seg | 03.04.06

[17] Saudades

polosul

Ontem, perante o espelho, quando olhei para estes olhos encovados, para as rugas incrustadas na testa, para a amarelidão dos dentes; quando apalpei o duplo queixo, medi a barriga e confirmei a curvatura das costas; quando me levantei e doeram-me as pernas, as articulações crocitaram e a urina correu em soluços prostáticos; ontem, dizia eu, constatei que o meu tempo já havia passado.

 

Telefonei à minha filha e a voz dela assegurou que o meu tempo já era outro. No autocarro tive inveja daquele par de namorados, ela branca e corada, ele moreno e corado. No emprego, olhei para os colegas e vi os namorados: os sussurros e enleios, os olhares e carícias... o que ciciariam? o que tocariam? Dei por mim, sentado defronte de um computador, a imaginar coisas…

 

Mas o que mais me aflige é este silêncio. O que mais me preocupa é esta paragem. O que me desgasta, aborrece, irrita, cansa e deixa ansioso é este nada. Esta rotina de saladas, sopas e frutas; estes recorrentes passeios de fim-de-semana, estes jantaricos de gritinhos, beijinhos e pancadinhas; estas manhãs de desporto sem competição ou de competição sem adversários. Estou só, raios!

 

E dizem: “Tem calma, pá! Vais ver que o tempo conserta tudo!”

 

Ou então: “Vai dar uma volta, vai ao cinema, vai até ao jardim…”

 

Mas o pior de tudo é quando me dizem que o silêncio deve ser escutado. Sinto logo um calafrio. Mas estas pessoas não dispõem de silêncio na vida deles? Moram ao lado de uma auto-estrada ou por cima de uma discoteca? Os vizinhos, os familiares, os colegas de trabalho não lhes dão um minuto de descanso que logo recomendam escutar o silêncio?

 

Nestes momentos quero estar só com a minha velhice e fazer as pazes com o tipo que entrevejo por entre estas lágrimas de saudade.

nortadas

Nortadas