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pólo sul

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Sex | 12.08.22

[144] Milagre, R. J. Palacio

polosul

O título do livro em português parece-me ser um tanto ou quanto oco ou frívolo, por ser tão banal e aquém do que é narrado. Seja como for, é um livro de que se pode gostar, não tanto pelas suas escassas virtudes estético-literárias, mas pela história e as emoções que desperta. A narrativa - capítulos pequenos, repletos de histórias e pomos (é mesmo pomos e não pontos) de interesse - ajuda a uma leitura fácil, por vezes a explicar porque é que dois-mais-dois-são-quatro, mas pronto, vale pela exposição do que é nascer feio, imperfeito e ser alvo de curiosidade, natural, nuns casos, doentia e intrometida, noutros.

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"Uma das razões porque deixei crescer o cabelo, no ano passado, foi por gostar que a franja me cubra os olhos, pois ajuda-me a tapar as coisas que não quero ver." (p. 30)

"O fotógrafo parecia ter acabado de chupar um limão quando me viu." (p. 84)

"Não, aquela parecia uma pela ser uma peça adulta, e eu senti-me inteligente ali sentado a vê-la." (p. 263)

Sex | 12.08.22

[143] Seda, Alessandro Baricco

polosul

Foram as reminiscências da minha infância que me levaram a este livro.

Quando era criança, perto do meu bairro, havia um imenso largo que se chamava, e ainda tem o mesmo nome, Campo das Amoreiras. Ali podíamos colher bichos-da-seda, não se lhes tocava, subíamos às árvores, arrancávamos as folhas onde eles se encontravam e púnhamo-los em caixas de sapatos. Fazíamos uns furinhos e passadas umas semanas eles começavam a fazer casulos, rompiam o casulo e apareciam as borboletas. Na verdade, não eram borboletas, eram mariposas, mas não vamos deixar que a linguagem técnica estregue esta narrativa.

 Era um milagre da natureza. Antes de iniciair as aulas de Ciências da Natureza, depois chamadas de Biologia, já tínhamos algum conhecimento empírico do ciclo de vida do bicho-da-seda, desde a larva até àquilo que insistíamos chamar de borboleta. Era assim que pensávamos então. Apesar de hoje em dia empregarmos uns nomes mais científicos para estas coisas, no fundo, verdadeiramente, passamos a vida a tentar reencontrar o que observámos quando éramos crianças.

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"- É mesmo necessário que vá, Baldabiou? [...]

- Eu não o posso deter. E se ele quer ir, eu só lhe posso dar mais uma razão para regressar." (p. 80)

 

"- O Japão é um país antigo, sabeis? A sua lei é antiga: diz que há doze crimes pelos quais é lícito condenar à morte um homem. E um deles é levar uma mensagem de amor da sua patroa.

- Não trazia mensagens de amor consigo.

- Ele era uma mensagem de amor." (p. 91)

 

"- É uma dor estranha. [...] - Morrer de saudade por algo que nunca se chegará a viver." (p. 100)