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pólo sul

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Qui | 07.10.21

[137] Vista Chinesa

polosul

Por ocasião do lançamento do livro, num vídeo que se pode ver aqui, Tatiana Salem Levy, aponta dois factos que travejam este romance - a violação de uma mulher, a sua amiga Joana, em agosto de 2014; e meses depois, ter assistido a uma exposição de fotografias de Taryn Simon, no Salão do Livro de Paris, sobre americanos que tinham sido presos por crimes violentos que não tinham cometido. A violação, ou estupro (como se diz no Brasil), ocorreu perto do miradouro Vista Chinesa, no Rio de Janeiro.

Por conseguinte, o trauma da violação sexual, que a autora diz também ter vitimado a sua mãe, falecida há cerca de 20 anos, e a possiblidade real de se cometer um erro de identificação que pode levar à prisão de um inocente, são dois ingredientes de um história marcada pela tentativa de esquecer a dor, mas lembrar os factos e os detalhes que levem à identificação do violador. E, simultaneamente, atravessada pelo pavor de se enganar, de se confundir, de se deixar possuir pelo desejo cego de vingança procurando alguém que, se não for o criminoso, que seja um homem parecido, pois isso também aliviará a dor e ajudará a retomar a normalidade.

A autora optou por narrar a história como se estivesse a escrever uma carta à filha e filho. gémeos, advertindo-os de que , "se em algum momento parecer que enlouqueci, saibam que ninguém é verdadeiro na lucidez. Ninguém. Nem mesmo a mãe de vocês." (p. 14)

Quis o destino que naquele dia, naquela hora, passasse naquele local e a sua vida fosse fraturada por uma homem baixo e forte, que empunhava uma arma, que a esmurrou e profanou.

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Ela queria escapar, já não ilesa, mas com vida: "Houve momentos em que eu dizia a mim mesma, tomara que ele se satisfaça, que seja bom pra ele, que ele tenha prazer, que ele não se irrite, que ele não se decepcione, mas que ele me deixe viva." (p. 28).

Resistindo às insistências da polícia para identificar o revóver com que foi coagida - se era de calibre "38, 82, 85, 86, 88 444, 608" - a vítima replicou que um revólver só tem um nome, mas que os "esquimós têm várias palavras para a palavra «branco», porque cada tipo de branco é uma cor diferente pra eles, mas a gente só tem uma, né, todos os brancos se chamam branco" (p. 40).

Seis meses depois, "as pessoas à minha volta tentavam propor metas, encontrar sentidos em algum ponto próximo, para que eu me dispusesse a caminhar." (p. 55), sendo "evidente que todos nós precisávamos nos agarrar a um objetivo para voltar à tona." (p. 29).

Porém, não parecia resultar.

Um dia, a psicóloga, que pouco falava, "disse que eu precisava falar. Não para os policiais, mas para mim mesma, falar deitada no divã, com o teto diante dos olhos, falar de verdade, falar o que aconteceu, contar a mim mesma o que eu vivi." (p. 81)

Atrevo-me a dizer, porventura levado pelo ímpeto de uma leitura demasiado recente, que, se dizemos que a sorte tem dois fatores essenciais - a oportunidade e a preparação - podemos igualmente dizer, como a vítima, de que há, sem  dúvida, uma dose de acaso que a destrói e continua a destruir. "Mas há uma coisa que extrapola o acaso: o ódio daquele homem, a violência daquele homem, a permissão que ele se dava de violar o meu corpo. Isso não é acaso. Nunca vamos saber o que a vida teria sido se não fosse o que é." (p. 114)

E remata: "Nunca me conformei com a ideia de que um único instante  mude para sempre a história de uma pessoa, mude também a história dos filhos dessa pessoa. O fato seria menos terrível se eu pudesse não levá-lo adiante. Se o horror se mantivesse naquele dia, naquela hora, naquele local." (p. 117).

 

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