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pólo sul

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Sab | 24.07.21

[125] Pensamentos secretos

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Sobre o secretismo dos pensamentos, ou melhor, sobre a verdade do que pensamos, David Lodge adianta o seguinte: "Nunca sabemos ao certo o que outra pessoa está realmente a pensar. Mesmo que decida contar-nos, nunca podemos saber se está a dizer-nos a verdade, ou a verdade toda." (p. 52)

Portanto, já avisados, ficamos a saber que se pode desvendar o que um cônjuge pensa, real e inteiramente, do outro, analisando a linguagem que adotam. Por exemplo: "Ela trata-o por «Messenger» (...), num tom meio deferente, meio irónico. De certa forma, parece servir o conluio de o colocar acima dos comuns mortais que têm os seus eus privados com o primeiro nome e as suas personae profissionais com apelidos; mas, ao mesmo tempo, o incongruente formalismo de uma mulher tratar o marido pelo apelido parece escarnecer das suas pretensões e interpor uma fria distância entre eles." (p. 33)

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E, confirma-se, estas coisas desembocam sempre em sexo: "aquilo que distingue o sexo humano do sexo animal é precisamente o sermos capazes de pensar nele, é por isso que o gozamos, e gozamos o gozo uns dos outros" (p. 92).

E depois, mais para o fim, depois de algumas peripécias de que Lodge é useiro e vezeiro, num dos seus momentos ensaísticos, escreve: "O acto sexual é um acto tão comum, tão banal, infinitamente repetido por milhões de pessoas todos os dias [...]; no entanto, cada pessoa tem a sua forma individual de se envolver nele, de o desempenhar e de se desprender dele, uma forma tão única e inequívoca como uma assinatura ou uma impressão digital. Isso assenta em várias coisas - ritmo e sequência, por exemplo, assim como o tipo de preliminares ou posição preferida. Quando se trata de uma relação estável, começa-se a conhecer o padrão de estímulos e reacções do parceiro, e ele o nosso. Não que todos os actos sexuais sejam exactamente iguais; mas existe uma espécie de repertório que se vai traçando em conjunto, elementos que se combinam de formas diferentes em diferentes ocasiões. [...] ... uma espécie de linguagem que os amantes aprendem" (p. 210-211).

Nada de novo é certo, mas sempre satisfatório ver apostilhado em livro.