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pólo sul

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Dom | 18.07.21

[124] O enterro do diabo

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Um coronel idoso, a filha que casou com um homem que não conhecia, e o filha dela, vão velar um morto, o "doutor", um homem que a povoação odiava, mas por quem o coronel se sentia devedor. O livro - dizem que é uma novela, pois seja - desenrola-se em monólogos do pai, da filha e do neto durante o velório. O "doutor" não tem a palavra, jaz morto, repescado à vida nos monólogos, sem direito a contraditório, afinal ele personifica o diabo.

Os habitantes da povoação não gostavam dele porque, em momento de emergência, o "doutor", que também era médico, recusou tratar os feridos. Não mais houve comiseração por ele. Não o lincharam porque o padre não o  permitiu. Subsistiu a pena capital para o pecado máximo - um enterro sem flores, sem pêsames e sem niguém.

No seu primeiro livro publicado (1955), Gabriel García Márquez apresenta-nos Macondo, refere-se ao coronel Aureliano Buendía, prende-nos a uma narrativa onde quem fala são personagens menores e de quem se fala é que é o principal personagem.

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Mas afinal quem era o "doutor"? É por causa desta pergunta que continuamos a ler, expectantes, e vamos sabendo do coronel, da filha e do neto.

Perante a recusa do alcaide em emitir a certidão de óbito, o coronel pensa: "Ao ouvi-lo, percebo que não está tão imbecilizado pela aguardente como pela covardia." (p. 30).

E depois, ao confrontar a esposa sobre quem era o visitante, ela respondeu ao coronel: "estou segura de que não é a pessoa com quem se parece, mas a própria pessoa com quem se parece." (p. 64).

Quando o coronel diz que o "doutor" é ateu, este nega: "O que acontece é que me perturba pensar que Deus existe como pensar que não existe. Então prefiro não pensar nisso." (p. 118).

Durante a narrativa sente-se que o "doutor" era um homem sofrido, atormentado, padecia, como se diz hoje, de stress pós-traumático. Isso explica porque, "Ao entrar pelo fundo. deparam-se-nos os escombros de um homem abandonado na rede. Nada deste mundo deve ser mais tremendo do que os escombros de um homem." (p. 142).