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pólo sul

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Sab | 10.07.21

[123] Eliete, para onde nos levas?

polosul

Dulce Maria Cardodo irrompeu na minha vida com O Retorno, livro que evocou e dessacralizou um período infantil e precoce da minha vida. Eles vinham de longe, os retornados, essas pessoas que desencadeavam um inexplicável desdém e censura por parte dos indígenas lusitanos. Apesar de  ser um miúdo, já entendia os desabafos exasperados sobre os retornados, mas não compreendia de todo a origem de tanta raiva. Porquê desvalorizar, injuriar e até difamar pessoas que fugiram das suas próprias casas? O que é que a maioria das pessoas à minha volta tinham observado e concluído que me tinha escapado? Talvez tenha sido esta uma das causas para ser tão inquiridor e esgotar a paciência da minha mãe.

Bom, mas o que trago até aqui é este livro:

eliete.jpg

Segundo a Dulce - espero que não olhem para este desaforo de a tratar por Dulce em vez de me referir a ela como A Dulce -, a este volume (Parte I - A vida normal) seguir-se-ia um outro e até falou num terceiro volume. Seja como for, se houver meio volume já vale a pena procurá-lo. A história de Eliete, e cabe dizê-lo antes de me distrair com outras literatices, nem sequer é muito interessante. Mas a maneira de a contar, a arte e o engenho (mil desculpas pela expressão gasta) da narrativa, a profundidade psicológica, emocional e racional da protagonista é tão rica e estimulante que, perguntar-se-ia, para onde nos vais levar, Dulce?

Num solilóquio de Eliete sobre uma das filhas: "A Inês representava melhor a fingir sofrimento ou a fingir felicidade? Preferia que fosse a fingir sofrimento e que a minha menina fosse sempre feliz." (p. 224)

E sobre as palavras, pedra angular de qualquer livro que passe pelas minhas mãos, escreve esta reminiscência que também foi a minha: "as heroínas das fotonovelas da mamã tinham-me ensinado que quanto mais se insistia numa palavra mais o significado dessa palavra se tornava o mesmo para todos os que a pensavam, ouviam e liam, que quanto mais importante fosse o que queríamos dizer menos substituíveis eram as palavras." (p. 273).

Ficamos à espera de mais, Dulce.

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