Sexta-feira, 22 de Setembro de 2006
[37] A promessa

Nós prometemos.

Enlaçámo-nos um no outro e prometemos que nada nem ninguém se atravessaria no nosso caminho. Naquele tempo sentimos que era tudo tão verdade, tão definitivamente verdadeiro. Como quando olhamos esta montanha e ela, perene e eterna, garante que sempre estará por ali.

A nossa promessa era uma colina. Não haveria luxúria nem baixeza que nos tentasse e a derrubasse. Quem diz colina, diz cordilheira, Sol, mar e sei lá que mais.

Tudo, mas mesmo tudo, era eterno. Mas depois os sentimentos foram-se e o tempo foi-nos surripiando palavras. Primeiro foi "amor", depois foram os diminutivos, os "inhos", os "necas"; deixámos de nos tocar e de cheirar. Quando demos por nós a dizermos que tínhamos que conversar e não conversávamos; quando finalmente reparámos que o "se faz favor" tinha desaparecido; quando comprámos mais um computador para estarmos no messenger e conversarmos com os nossos amigos depois de deitarmos as crianças; quando deixámos de conversar estupidamente na cama e passámos a falar de coisas sérias e repletas de recriminações; quando sentimos que o nosso sexo era um misto de dever e de alívio...

Quando, enfim, deixei de te ouvir e apenas pensar que tinha de acabar, sair dali e desaparecer, concluí, tarde, que uma promessa só vale no momento em que é feita.



publicado por polosul às 09:10
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17 comentários:
De preconceitos a 22 de Setembro de 2006 às 15:57
Por vezes dura um niquinho mais...


De Yuki a 22 de Setembro de 2006 às 23:06
... e por vezes....

"You must remember this
A kiss is just a kiss, a sigh is just a sigh.
The fundamental things apply
As time goes by.

And when two lovers woo
They still say, "I love you."
On that you can rely
No matter what the future brings
As time goes by."
[Louis Armstrong]


De polosul a 26 de Setembro de 2006 às 23:12
Ah! não tenho dúvida que os "fundamentals apply", mas quando vem uma nortada que tudo esfria, quando tudo arrefece e um beijo não aquece, quando não há mais nada, a promessa deixa de ter sentido.


De Sarasvati a 27 de Setembro de 2006 às 14:16
"A importância de ser HOnesto"
Promessa deixa de ter sentido quando já não existe mais nada: nem sonhos a dois, nem projectos a dois, nem sinceridade nos dois... nem amizade entre os dois. É bem verdade.
A questão é que, por norma, nunca ninguém se condena logo quando se apercebe disso. Depois o que acontece é que acarreta na palavra "promessa" conceitos que apenas cabem na sua incapacidade de ser honesto consigo próprio.
Concluo que promessa vale mais do que no momento em que é feita, vale todo o periodo que durar a honestidade de ambos.


De Sarasvati a 22 de Setembro de 2006 às 23:30
Por vezes sim, se continuarem a sonhar juntos;
Por vezes sim, se projectarem a dois;
Por vezes sim, se forem sempre sinceros;
Por vezes sim, se forem cúmplices um do outro;

Por vezes sim, dura bem mais que um niquinho.

... nunca me aconteceu.


De preconceitos a 23 de Setembro de 2006 às 10:46
Na filosofia de prolongar o que temos para além do hoje, esquecemos porventura de usufruir agora e então não temos, nem teremos.
Penso assim: se me preenche e tenho hoje, é bom. Se amanhã assim for,´será óptimo.
Porque na verdade, seja a verdade o que seja, se nem os diamantes são eternos, porque exigimos que os sentimentos o sejam ?


De Sarasvati a 23 de Setembro de 2006 às 22:33
... e então como se fazem os projectos se pensarmos só no hoje, pq hoje é que está bom?
Como é que compramos casa com alguém que amamos se não for por achar que amanhã estará ali para a gozarmos juntos?
Como é que construimos familia, se não for por achar que amanhã estará ali para a disfrutarmos juntos?
Como é que se sonha a dois, se não for por achar que amanhã estará ali para o concretizar ou o continuar?
Como? Ou será que estou a baralhar conceitos?
É certo que tudo perece, até os sentimentos, é bem verdade... mas se pensarmos assim então nunca conseguiremos ressaltar nada duma relação durante o período que decorre entre dois orgasmos não seguidos.
Mas talvez tenha razão e seja essa a maneira de vivenciar o Amor adaptado aos tempos que correm... dá que pensar.


De preconceitos a 24 de Setembro de 2006 às 09:51
Não acredito no amor dum dia só. O amor precisa de tempo para ser o que é, carinho, ternura, entrega e cedência..
Só disse que por força do amanhã, por vezes, não usufruimos o hoje.
Fiquem bem.


De Sarasvati a 25 de Setembro de 2006 às 12:27
É certo que por força do amanhã, não usufruimos o hoje.
Também é certo que o amor acaba por força de muitas outras coisas e o amanhã é uma boa saída.
Isso da entrega e da cedência chama-se investir, projectar, entre os dois. Ou então a metafora da plantinha: "regar e alimentar o amor para que não seque e morra".
Pois, é lindo, não é? mas porque é que ninguém fala na Amizade? Sim, esse cúmplice do amor. Ninguém fala... na base! É estruturando a base que tudo cresce e se mantém seguro. Porque derrocadas, abalos, contrariedades, tentações, vão sempre surgir.
Se a base não for sólida, não há promessa que a mantenha de pé.
Sejam amigos (:... primeiro.


De preconceitos a 25 de Setembro de 2006 às 16:00
Estamos quase lá, porque afinal é fundamental o conceito de amor de cada um de nós.
Para mim amizade não é cumplice. Tem de ser unha com carne.
Para mim amor não significa de todo a relação fisica
Para mim esse tipo de relação, se cohabitar com o amor, tem de o dignificar.
O problema é que já caminhei demasiado...


De Sarasvati a 25 de Setembro de 2006 às 23:03
Há muita estrada para percorrer, nunca se caminha demasiado... a não ser que os calos apertem.


De polosul a 26 de Setembro de 2006 às 23:25
Bem escrito Sarasvati!

A amizade é sempre um bom alicerce, incluindo do amor, se ele sobrevier.


De polosul a 26 de Setembro de 2006 às 23:17
A promessa vale sempre contantot se mantenham aqueles pressupostos - sonharem, projectarem, sinceridade, cumpicidade - e aí sim dura mais.

E quando tudo aquilo acaba? A promessa fundamental mantém-se?

Se promete "amar-te para sempre", hoje, que nada sente, pode manter o que disse e... prometeu?



De polosul a 26 de Setembro de 2006 às 23:08
Pois! mas naqueles momentos, pós-encantamento, parece que só valeram naquele momento.


De preconceitos a 24 de Setembro de 2006 às 13:02
E tu, autor da prosa, ficas no teu canto a olhar os gladiadores...?
PROMETE comentar os comentários... e não faltes.


De polosul a 26 de Setembro de 2006 às 23:22
Estou com um problema que não consigo controlar: porque é que os comentários que faço a cada um dos vossos comentários, fogem do sítio onde os pus!!?? :-)


De preconceitos a 27 de Setembro de 2006 às 10:24
Só vim aqui depois do mail, pelo que terás de ignorar o pedido de intervenção..
Afinal estás de polegar para cima e os derrotados são perdoados..Porreirinho. Assim posso continuar a comer pasteis de nata..
Na minha inexperiencia acho que o comentário só tem dois lugares. Ou é comentário principal ou é discussão de comentário anterior- Vamos lá ver onde fica este.
Tenho andado por outros caminhos, bem mais duros. Os calos são invenção dos sofridos.


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