Quarta-feira, 6 de Setembro de 2006
[33] A ler nos apaixonamos (III)

E ela respondeu com o seguinte:

«Caro Senhor, lamento só agora responder à sua missiva. E peço-lhe que releve. Pois foi por uma causa honesta. Fico envergonhada só de o imaginar a escrever todas aquelas coisas! Olho para os meus familiares, amigos, inimigos, fãs e críticos e confesso que jamais me ocorreu ser olhada com essa profundidade. Você escreveu aquilo que eu sou! Apaixonei-me pela sua carta. Li, reli, porventura tresli, rendida à evidência.

 Você escreveu o que sempre sonhei.

 

Sempre desejei, sabe Deus com que intensidade!, seduzir quem me lê! Sempre sonhei secretamente ser a causa dos ciúmes de todos os maridos e de todas mulheres; desde que me lembro, sempre quis arrebatar quem passava os olhos pelas páginas que um dia escreveria. Sempre pensei, embora nunca o admitisse de viva voz, que seria a causa e o remédio de todos os males. E finalmente, suprema glória e prazer, queria que me amassem. É uma palermice, mas é verdade.

Acabei por admitir duas coisas: que não posso querer sempre mais, sob pena de nunca ter o suficiente; e que nunca conseguirei escrever de forma a conquistar tudo e todos.

 

E assim descortinei o que penso ser o princípio de uma ideia que procurarei verter no meu próximo livro — e se o “amor” for uma mera palavra que exprime o indescritível?; e se o amor for um mero apeadeiro numa linha contínua de afectos? E se for tudo uma invenção?»



publicado por polosul às 01:45
link do post | nortadas
|

15 comentários:
De Sarasvati a 6 de Setembro de 2006 às 10:57
Finalmente a resposta dela, confesso que já tinha perdido a esperança (:
... no entanto, que ironia terminar com uma pergunta, a eterna pergunta!
Duma coisa estou certa: este desarranjo hormonal que o Amor provoca, apenas tem como intuito a propagação da espécie, o resto... o resto é marketing personalizado.
Que seria das floristas, das chocolaterias, das joalharias, dos psicologos, dos trovadores, das poesias ao luar e das tranças à janela, se assim não fosse?

Parabéns por nos fazeres vibrar e sonhar acordados.

Já agora: que vai ele responder? (:


De Anonimo a 6 de Setembro de 2006 às 14:08
Queres então dizer que não acreditas no amor? Nos sentimentos e emoções puras que se podem nutrir por outra pessoa? Acredito que o "desarranjo hormonal" possa ter influência, alguma influência, até posso aceitar que o amor possa começar por esse "desarranjo" mas pode evoluir para algo mais, até para algo sem esse mesmo desarranjo hormonal, que poderás chamar talvez de "amizade cumplice" mas tem sempre por base o sentimento, esse sentimento que é o amor. O marketing nada tem a ver com isso, o marketing personalizado é uma invenção dos tempos modernos, da sociedade de consumo.
Eu acredito que ainda hoje, exista quem morra por amor. Pelo menos quero acreditar.


De Yuki a 6 de Setembro de 2006 às 20:34
(...)
What a wicked game to play, to make me feel this way.
What a wicked thing to do, to let me dream of you.
What a wicked thing to say, you never felt this way.
What a wicked thing to do, to make me dream of you and,

No, I don't want to fall in love. (This world is only gonna break your heart)
(...)
The world was on fire and no one could save me but you.
It's strange what desire will make foolish people do.
I never dreamed that I'd meet somebody like you.
And I never dreamed that I knew somebody like you.

No, I don't want to fall in love. (This world is only gonna break your heart)
With you.
(...)
Nobody loves no one.
[Chris Isaak]


De Sarasvati a 6 de Setembro de 2006 às 22:42
O marketing personalizado é a constatação da verdade e não só dos tempos modernos, diz antes: de todos os tempos, desde que o Homem é Homem, melhor dizendo desde que o Homem, é homem e mulher.
O morrer de amor é a forma poética, obsoleta e doentia do estado da alma.
Acredito no Amor, mas há muitos tipos de amor: tens o amor maternal, carnal, virtual, platonico, religioso, filial, eu sei lá mais que tal.
Tudo se resume a sentimentos sim, e à pureza com que os sentes e os transmites a outrém.
É bonito morrer por amor, mas quando passa a paixão (esse estado efemero) e te olhas ao espelho e dizes "Ainda bem que não morri!" ... porque de seguida podes estar a vivenciar um grande sentimento de amor ou talvez tenhas acordado.
Ninguém consegue viver nesse estado eternamente, muito menos nos dias que correm.
Ninguém tem tempo para dar atenção ao outro, ninguém quer fazer por isso.
Inventou-se o casamento para forçar a fidelidade dos casais - não funciona, se não partir de ti proprio e isso tem que passar por te conheceres e lidares com o teu eu, numa forma de aprendizagem, de crescimento - isto se queres fazer outra pessoa feliz e principalmente a ti.
Tudo acaba numa amizade cumplice, mas é bonito continuar a sonhar acordado... e a achar que é fogo que arde sem se ver ou dor que desatina sem doer, ... aconselho Valdispert.


De polosul a 7 de Setembro de 2006 às 00:39
Caro anónimo (com acento),
amor puro!? Olhe que uns desarranjos hormonais no momento e sentido certo são bem fixes :-)

Vamos ao sério: claro que se morre de amor. Mas não directamente, resulta de uns incidentes, porventura acidentes, de vicissitudes, esquinas e cruzamentos que não dão jeito nenhum, atrapalham e por vezes, às vezes, atiram-nos para a mais profunda crise, depressão e sabe-se lá que mais...

Eu acredito e tb acredito que uns maduros aproveitaram-se destas coisas que nos dão uns calores para apanharem uma boleia e venderem-nos umas coisas. Que mal tem!? Eu continua a gostar dela e ela de mim...


De Anónimo a 7 de Setembro de 2006 às 09:17
Quando refiro morrer de amor, não se trata da morte tal como a conhecemos e tememos, com direito a certidão de óbito. Trata-se da morte do espírito, a morte interior, o definhar, o esvair da vida, do seu sentido, do seu propósito, de tudo afinal. Pode-se amar alguém e somente com esse alguém a vida fazer sentido. E não, não se trata de dependência, trata-se simplesmente de amor.


De Anónimo a 7 de Setembro de 2006 às 09:46
Caro polosul,

Peço desculpa pela falha ortográfica, mas deve-se a possuir um teclado "AZERT", o que dificulta por vezes a pontuação. Mas como se costuma dizer o que conta é a intenção.! E neste caso a participação na discussão do teu interessante blog.

Já agora porque não polo com acento?



De polosul a 7 de Setembro de 2006 às 00:29
Isto anda a ficar animado por aqui :-)
Qualquer dia passo-vos o blog, já que não me dedico com mais zelo e afinco a estas coisas.

Sarasvati, permita-me, respeitosamente, discordar de vocelência. Aqueles textos não falam de amor, falam da invenção dele. Melhor: da sua origem na escrita. Fala daquelas pessoas que se enamoram do autor/narrador, tal como eu me apaixonei pela Enid Blyton nos bons velhos tempos. E depois inventam o amor. Veja a resposta do pinga-amor no post 34.

Espero que goste de ler, tanto como me divirto a escrever.


De Sarasvati a 12 de Setembro de 2006 às 01:46
Caro Polosul (sem acento),
Discorde vocelência à vontade, quanto mais não seja porque está em "sua casa"!
É no discordar e conversar que crescemos.
É o respeitar a opinião do outro que nos torna também mais iluminados.
Ora iluminação, é o que me parece falta ao rapaz das bolachas pra cão... mas a ver.

Enid Blyton, esse ícone da narrativa divertida e da imaginação exponenciada... quase fui pra PJ por causa dela.
Curioso! Nas suas histórias havia sempre um cão... agora percebo! (:


De polosul a 12 de Setembro de 2006 às 22:25
Concordo, o rapaz tem alguma falta de imaginação. Mas ele já não sabe inventar. Como todos os espíritos delirantes, ele entusiasma-se.... mas logo tudo passa. Entradas de leão, saídas de...


De Sarasvati a 12 de Setembro de 2006 às 22:51
... falta-lhe o engenho (:


De Yuki a 6 de Setembro de 2006 às 12:25
"(...) I'm so in love with you
Purge the soul
Make love your goal

The power of love
A force from above
Cleaning my soul
Flame on burn desire
Love with tongues of fire
Purge the soul
Make love your goal

I'll protect you from the hooded claw
Keep the vampires from your door
When the chips are down I'll be around
With my undying, death-defying
Love for you

Envy will hurt itself
Let yourself be beautiful
Sparkling love, flowers
And pearls and pretty girls
Love is like an energy
Rushin' rushin' inside of me

The power of Love (...)

This time we go sublime
Lovers entwine-divine divine
Love is danger, love is pleasure
Love is pure-the only treasure

I'm so in love with you..."
[Frankie Goes To Hollywood]


De polosul a 7 de Setembro de 2006 às 00:32
Yuki,

um é bom, dois dá cabo de mim de prazer. "Too much of a good thing is wonderful", Mae West


De Yuki a 12 de Setembro de 2006 às 02:00
Ainda bem! (:
Por vezes sentia-me um pouco intrusa, mas delicio-me com o que escreve e acabo por me deixar voar também.
Prometo moderar-me.

(Cruzei os dedos!)


De polosul a 12 de Setembro de 2006 às 22:30
Exceda-se, exceda-se à vontade, pois daqui não leva mais que palavras se for moderada :-)


Comentar post

mais sobre mim
pesquisar
 
Maio 2015
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
19
20
21
23

24
25
26
27
28
29
30

31


posts recentes

(113) ser incompleto

[112] a raça humana

[111] viva México

[110] por vingança?

[109] o que é que eu fiz

[108] o pai

[107] memórias & enganos

[106] lembrei-me do Tejo

[105] Irvin D. Yalom

[104] T. S. Eliot

[103] o garanhão de Santa...

[102] o que farão as mosc...

[101] quem tem pressa não...

[100] a questão Finkler, ...

[99] 1Q84, Murakami

[98] Machu Picchu, Peru, ...

[97] Salkantay Trek, Peru...

[96] Uma vida pela metade...

[95] Laos, dezembro de 20...

[94] Cambodja, novembro d...

arquivos

Maio 2015

Março 2014

Fevereiro 2014

Outubro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Agosto 2012

Julho 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Julho 2010

Junho 2010

Maio 2010

Março 2010

Fevereiro 2010

Janeiro 2010

Setembro 2009

Agosto 2009

Maio 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

tags

todas as tags

links
Fazer olhinhos
blogs SAPO
subscrever feeds