"- Foi o tempo que tu perdeste com a tua rosa que tornou a tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer.
- Os homens já não se lembram desta verdade - disse a raposa. - Mas tu não te deves esquecer dela. Ficas responsável para todo o sempre por aquilo que cativaste. Tu és responsável pela tua rosa...
-Eu sou responsável pela minha rosa... - repetiu o principezinho, para nunca mais se esquecer."
Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho, p. 74.
Ao subir o Mekong, no Laos, um basco sacou da mochila o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, e disse-me que viajava sempre com ele. Passou-me o livro e abri-o numa página que dizia o seguinte:
Cada vez que viajo, viajo imenso. O cansaço que trago comigo de uma viagem de comboio até Cascais é como se fosse o de ter, nesse pouco tempo, percorrido as paisagens de campo e cidade de quatro ou cinco países.
Cada casa por que passo, cada chalé, cada casita isolada caiada de branco e de silêncio - em cada uma delas num momento me concebo vivendo, primeiro feliz, depois tediento, cansado depois; e sinto que tendo-a abandonado, trago comigo uma saudade enorme do tempo em que lá vivi. De modo que todas as minhas viagens são uma colheita dolorosa e feliz de grandes alegrias, de tédios enormes, de inúmeras falsas saudades.
Depois, ao passar diante de casas, de vilas, de chalés, vou vivendo em mim todas as vidas das criaturas que ali estão. Vivo todas aquelas vidas domésticas ao mesmo tempo. Sou o pai, a mãe, os filhos, os primos, a criada e o primo da criada, ao mesmo tempo e tudo junto, pela arte especial que tenho de sentir ao mesmo [tempo] várias sensações diversas, de viver ao mesmo tempo - e ao mesmo tempo por fora, vendo-as, e por dentro sentindo-as - as vidas de várias criaturas.
De Battambang para Siem Reap, com passagem pelo lago Tonle Sap, encontrei dois pares de aves que conjugaram num breve momento uma das metáforas mais interessantes da vida:
João Serra, o senhor do adeus, morreu.
Excerto de notícia do Público:
Souberam por amigos, por SMS ou através do apelo lançado no Facebook. Mais de uma centena de pessoas reuniu-se na noite de quinta-feira, a partir das 22h00, na praça Duque de Saldanha, no centro de Lisboa, para acenar aos carros, tal como o Senhor do Adeus fazia “desde sempre”.
(...)
Mais atrás, estava o escritor Rui Zink. “Este é o melhor velório a que vim nos últimos anos. E eu já estou a ficar habituado a velórios. Provavelmente é o melhor a que alguma vez irei”.
Uma vez passei por ele e timidamente acenei-lhe. Senti-me num despropósito: "Porque raio faço adeus a um desconhecido!?"
Ele respondeu com um sorriso de compreensão pelo meu constrangimento. Fiquei aliviado e estupidamente orgulhoso.
We walk together, we're walking down the street
And I just can't get enough, I just can't get enough
Every time I think of you I know we have to meet
And I just can't get enough, I just can't get enough
Depeche Mode. Tb por Nouvelle Vague.
...
my clothes don`t fit me no more
i walked a thousand miles
just to slip this skin
...
Bruce Springsteen, Streets of Philadelphia
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade
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